ASDS CUIDA
Uma rede de saúde com coração

O Dr. João Parente, médico psiquiatra em Lisboa, é um dos inspiradores da Rede Clínica Solidária ASDS CUIDA, um projeto que pretende aproximar os cuidados de saúde das pessoas que, devido às suas circunstâncias económicas, encontram maiores dificuldades em obtê-los.

1. Como surgiu a ideia deste projeto?
Sou associado da ASD Social há alguns anos e foi nesse contexto que tive a oportunidade de conhecer o Dr. Boris Marcq e o Sr. Pedro Pereira, dois dos seus dirigentes.
São pessoas raras e profundamente inspiradoras. Pessoas que ainda acreditam em causas e ideais e que não conseguem olhar com indiferença para as consequências da desigualdade social. Sentem como seu o sofrimento dos outros e transformam esse desconforto numa vontade genuína de agir.

Foi desse encontro de vontades que nasceu uma conversa. Depois outra. Acabámos por nos reunir e colocar ideias em cima da mesa, num verdadeiro exercício de reflexão conjunta. Procurámos imaginar de que forma os cuidados privados de saúde poderiam tornar-se mais acessíveis às pessoas com menores recursos económicos.

Não partimos de respostas prontas. Partimos de uma inquietação comum: a de saber que existem pessoas que precisam de cuidados de saúde, mas que os adiam ou abandonam porque não conseguem suportar os respetivos custos.

Foi dessa inquietação — e da convicção de que não podemos permanecer indiferentes — que começou a nascer a Rede Clínica Solidária ASDS CUIDA.

2. O acesso aos cuidados de saúde está a tornar-se mais difícil para as pessoas com rendimentos modestos?
O Serviço Nacional de Saúde é uma das maiores conquistas da nossa sociedade e constitui um património que devemos preservar e valorizar. Contudo, enfrenta dificuldades crescentes para responder, de forma atempada, a todas as pessoas que dele necessitam.

Perante os tempos de espera ou a dificuldade em encontrar determinada resposta, muitas famílias procuram alternativas no setor privado e algumas contratam seguros ou planos de saúde. Mas existe também uma espécie de “maioria silenciosa”: pessoas que não dispõem de capacidade financeira para pagar um seguro, um plano de saúde ou uma consulta privada.

Falamos de idosos com pensões reduzidas, de famílias que vivem com orçamentos muito apertados, de trabalhadores com vínculos precários, de pessoas que, mesmo trabalhando, chegam ao fim do mês com muito pouco — ou nada — para cuidar da própria saúde.

São pessoas que, muitas vezes, adiam uma consulta, um exame ou um tratamento. Pessoas que aprenderam a suportar a dor em silêncio, não porque lhes falte coragem, mas porque lhes faltam recursos.

Talvez uma das imagens mais dolorosas da nossa desigualdade seja a de alguém que chega à farmácia com uma receita e pergunta quais dos medicamentos poderá deixar para depois. Ou a de uma pessoa idosa que leva apenas parte da medicação porque o dinheiro não chega para tudo.

Nenhuma sociedade se pode considerar verdadeiramente justa enquanto alguém tiver de escolher entre cuidar da sua saúde, comprar alimentos ou pagar as contas da casa.

3. Qual é o principal contributo que o ASDS CUIDA pretende dar?
O ASDS CUIDA pretende construir uma ponte: uma ponte entre os profissionais e as instituições de saúde que desejam ajudar e as pessoas que mais precisam dessa ajuda.
Através de uma rede de clínicas e profissionais solidários, pretende-se criar condições para a realização de consultas e outros cuidados de saúde a preços sociais. Sempre que seja possível, pretende-se também que cada entidade ou profissional aderente disponibilize uma pequena quota de consultas gratuitas para situações de especial vulnerabilidade.

ASD Social não é a primeira, nem será a última. Mas quis dizer: Presente!

Não se pretende substituir o Serviço Nacional de Saúde, nem competir com ele. Pretende-se complementar as respostas existentes e mobilizar a sociedade civil para um problema que é de todos.

Uma consulta a preço reduzido ou disponibilizada gratuitamente pode parecer um gesto pequeno. Mas, para quem está do outro lado, pode representar muito mais: um diagnóstico feito a tempo, o alívio de uma dor, o início de um tratamento ou, simplesmente, a certeza de que alguém viu a sua dificuldade e não ficou indiferente.
Este não é um projeto fechado. É uma semente.

Poderá crescer, chegar a diferentes regiões do país, envolver novas especialidades e reunir cada vez mais profissionais, clínicas, instituições e cidadãos. O seu crescimento dependerá da capacidade de transformarmos o nosso desconforto perante a desigualdade numa solidariedade concreta, organizada e duradoura.

Não basta reconhecer que o problema existe. É preciso criar caminhos para que alguém possa chegar a uma consulta sem medo do preço que terá de pagar.

4. Qual é a sua mensagem para os profissionais de saúde em Portugal?
Aos profissionais de saúde gostaria de deixar, antes de tudo, uma palavra de reconhecimento.

Conheço bem a exigência das profissões de saúde, as responsabilidades que carregam, o desgaste acumulado e as muitas solicitações a que diariamente procuram responder. Por isso, este projeto não pretende impor obrigações nem fazer apelos que ignorem a realidade de cada profissional ou instituição.
Pretende, sim, formular um convite.

Um convite para que cada um participe na medida das suas possibilidades: através de uma consulta a preço social, de uma pequena quota de atendimentos gratuitos ou de qualquer outra forma de colaboração que possa fazer a diferença na vida de alguém.

Não se pede que uma única pessoa resolva um problema tão vasto. Pede-se que muitos façam um pouco. Porque, quando partilhado, o esforço torna-se mais leve — e o seu impacto pode ser imenso.

A medicina e os restantes cuidados de saúde assentam no conhecimento científico, na competência técnica e na responsabilidade profissional. Mas vivem também da relação humana, da capacidade de escutar, acolher e cuidar. E é precisamente nesse encontro entre competência e humanidade que o ASDS CUIDA pretende afirmar-se.
Não se trata de uma questão de esquerda ou de direita. A dignidade humana não pertence a nenhum partido, ideologia ou setor da sociedade.

É uma causa que exige que usemos os dois braços para trabalhar, todas as nossas capacidades para construir soluções e, acima de tudo, o nosso coração para não deixarmos ninguém para trás.

Porque a saúde não deveria ser um privilégio reservado a quem a pode pagar. Deve ser um direito vivido com dignidade por todos.
E porque cuidar de alguém é, no sentido mais profundo, cuidar da sociedade inteira.